Andar com apenas
uma harmônica e tocar com todo
mundo, em vários sons e tons, é certamente
uma imagem bem tradicional do imaginário
popular sobre a figura do gaitista.
E essa realidade vem ganhando cada
vez mais ganha corpo, na medida em
que, são forjadas novas possibilidades
que libertam a harmônica diatônica
das demais harmônicas que, supostamente
a completariam. Cromatizar a harmônica
diatônica, no nosso ponto de
vista, é uma questão
musical filha da mãe natureza,
muito mais do que meras “técnicas
avançadas”.
Primeiramente precisamos entender que se
trata de um instrumento capaz de produzir
38 notas musicais distribuídas numa
extensão de três oitavas cromáticas.
O gaitista americano Howard Levy foi o
primeiro a sistematizar essa técnica,
que se baseia num “acréscimo” das
notas que se imaginava “faltar” numa
harmônica diatônica.
De fato, “cromatização
de uma harmônica diatônica” ainda
se apresenta como um conceito contraditório,
posto que o instrumento tem plenas condições
físicas para realizar as três
escalas cromáticas.
A
CROMATIZAÇÃO
DA GAITA DITA DIATÔNICA
Texto
escrito por Fabricio Casarejos (licenciado
e bacharel em Fisica pela UERJ, mestrado
em Física - cosmologia pela UERJ,
doutorando em Biofísica experimental
pela PUC-RJ.)
A emissão física de sons pela
gaita se dá através de comportamentos
controlados de oscilação e
vibração de pequeninas palhetas
de metal ordenadas ao longo de duas placas
de vozes, uma localizada na parte superior
e a outra na inferior.

Em cada um dos orifícios podemos emitir
duas vozes naturais, bastando para isso soprar
ou aspirar espontaneamente, o que ao final
nos confere um total de 20 vozes naturais
dispostas ao longo de três oitavas
como mostra o quadro abaixo.
Como podemos observar, existe uma escala
maior de C naturalmente disponível
na segunda oitava da gaita, ou seja, entre
os orifícios quatro e sete. No entanto,
para executar a escala maior de C ao longo
das três oitavas da gaita temos que
fazer uso das técnicas de construção
de notas.
1. As letras C, D, E, F, G, A, B significam do, re, mi, fa, sol, la,
si, respectivamente.
Com a técnica de construção das tradicionalmente chamadas “bending
notes” podemos bem construir na primeira oitava as notas Db ou C#, F, Gb
ou F#, A, Bb ou A#, Ab ou G#, na segunda oitava as notas Db ou C# e Ab ou G#,
e, por fim, na terceira oitava Eb ou D#, Gb ou F#, Bb ou A# e B. Deste modo,
para se executar a escala maior de C na primeira oitava basta construir as notas
F e A e na terceira oitava basta construir a nota B.
Por outro lado, para
executarmos a escala cromática, a técnica de
construção das “bending
notes” ainda não é suficiente.
Neste sentido, temos que lançar
mão da técnica de construção
dos chamados “overblows notes” e “overdraws
notes”. Com esta técnica
de construção de notas
podemos construir na primeira oitava
o Eb ou D# e na segunda oitava o Eb ou
D#, Gb ou F# e o Bb ou A# - os quais
são “overblows notes”.
Já na terceira oitava podemos
construir o Db ou C# e o Ab ou G# - os
quais são overdraws.
As notas escritas em preto com o fundo
branco são as vozes naturais;
as vozes escritas em branco com o fundo
preto são as “bending
notes”; as vozes escritas em
branco com o fundo cinza claro são
os “overblows notes” e
as notas escritas em branco com o fundo
cinza escuro são os “overdraws
notes”. A gaita, portanto, nos
permite três oitavas cromáticas
compostas por vinte vozes naturais,
doze “bending notes”, quatro “overblows
notes” e dois “overdraws
notes”.
A importância
da respiração
e do trato vocal
Para se bem realizar
as técnicas
de construção de notas
na gaita temos que aperfeiçoar
todo o tratamento muscular de respiração
e embocadura. Tanto a execução
fluida quanto a sonoridade destas notas
dependem diretamente de nossa musculatura
facial e estrutura ressoadora – o
chamado trato vocal. É a nossa
estrutura ressoadora, constituída
pelo diafragma e pelo conjunto das cavidades
laríngea, faríngea, bucal
e nasal, que especificará as características
acústicas finais do som emitido.
Uma
importante qualidade do trato vocal é a
sua grande capacidade de variar a sua
forma. Os processos pelos quais se fazem
as alterações e ajustamentos
de forma no trato vocal denominam-se
articulação. Já as
estruturas que permitem esses ajustamentos
denominam-se articuladores. Os articuladores
são os músculos faciais,
os lábios, o maxilar, a língua,
a laringe e o palato móvel, cujos
movimentos podem aumentar ou diminuir
a forma do trato vocal em pontos específicos,
proporcionado assim um adequado controle
da dinâmica e projeção
do som.
Uma tarefa imediata ao gaitista é obter
um instrumento que possua as condições
físicas necessárias à construção
de notas. A partir daí o gaitista
deverá trabalhar com calma sua
respiração e seu trato
vocal. O sopro deve ser canalizado desde
o diafragma, tendo o controle de abertura
e fechamento da coluna do fluxo de ar
através das cavidades faringe,
laringe e bucal. O sopro e a aspiração
de forma alguma deverão ser fortes,
mas sim leves e controlados. Outros obstáculos à construção
de notas na gaita são uma empunhadura,
uma embocadura e um trato vocal incorretos.
A empunhadura deve ser firme e ergonomicamente
ajustada. Deve-se relaxar toda a musculatura
da face e do corpo de modo a controlar
os harmônicos necessários à boa
sonoridade e volume sonoro.
Para cada
nota existe um conjunto de articulações mais apropriado. É muito
importante memorizá-lo e aperfeiçoá-lo.
Pratique em frente a um espelho e procure
analisar a forma e a dinâmica de
sua embocadura, ajustando apropriadamente
as cavidades laríngea, faríngea
e bucal. Lembre-se, seu corpo é a
continuação do instrumento!
O trato vocal deve ser consistente e
capaz de direcionar o fluxo de ar no
sopro e na aspiração, de
forma a selecionar de modo preciso a
palheta a ser ativada.
Quando sopramos
espontaneamente através
de um orifício obtemos um som
gerado pela palheta da placa de vozes
superior.
Quando aspiramos espontaneamente obtemos
um som gerado pela palheta da placa de
vozes inferior.

Com o trato vocal é possível
inverter este mecanismo de modo a priorizar
a ativação – emissão
de som - da palheta da placa de vozes
superior na aspiração e
priorizar a ativação da
palheta da placa de vozes inferior no
sopro. Contudo, a dinâmica de construção
e as características finais dos
sons são dadas pelo comportamento
combinado de processos que envolvem ambas
as palhetas. Tais ativações
combinadas nos permitem completar as
notas que faltam para a cromatização
do instrumento e um contínuo de
outras freqüências. Abaixo
temos uma figura que mostra uma visão
interna da gaita na condição
de emissão de uma “bending
note” aspirada.
Quando tocamos
um “overblow note” a
palheta aspirada possui um alto grau
de ativação e a soprada
um grau de ativação relativamente
muito baixo. Neste sentido, costumamos
dizer que a palheta da placa de vozes
inferior é a responsável
pela emissão de som. Enquanto
que a palheta da placa de vozes superior
atua como válvula de obstrução
da fenda de oscilação.
Deste modo, um “overblow note” consiste
de duas partes separadas:
(1)
Obstrução da fenda
de oscilação da placa superior
com a palheta;
(2) Ativação da palheta
da placa de vozes inferior.
Embora o objetivo
da técnica
de construção de um “overblow
note” seja o de produzir som a
partir da palheta da placa de vozes inferior
soprando, a obstrução da
fenda de oscilação da placa
de vozes superior com o devido controle
da palheta é um passo determinante
para a resposta e para o timbre da nota
construída. Note que o mesmo se
aplica aos overdraws:
(1) Obstrução da fenda
de oscilação da placa inferior
com a palheta;
(2) Ativação da palheta
da placa de vozes superior.
Abaixo temos
duas figuras que mostram uma visão interna da gaita na
condição de emissão
de um “overblow note” – primeira
figura, e de um “overdraw note” – segunda
figura.
Vejamos como esses mecanismos de construção
de notas acontecem na gaita.
2. Os graus de atividade
das palhetas sopradas e aspiradas foram
aqui listados
de modo qualitativo. A correlação
entre os graus foi definida para cada
orifício isolado a partir do
mínimo e máximo de ativação
de cada par de palhetas.
Um bom estudo e um bom timbre!
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